segunda-feira, 16 de junho de 2008

Farinha, água e sonhos

 

Pobreza-05Nesse último final-de-semana, sem querer, fiquei observando o homem. Digo homens,  no contexto substantivo masculino da palavra. Mais profundamente e especificamente, observei o provedor, o cara que trabalha para dar o mínimo de condições sustentáveis e dignas para  sua família.  Observei o desempregado, o pedinte que vai de casa em casa. Foram filmes, programas de televisão, relatos ouvidos de alguns desconhecidos que perambulavam pelas ruas, que bateram no meu portão. E  sentei na calçada, no chão, no paralelepipedo e tirei deles o melhor de mim, para mim.

O choro de um homem, de um pai de família desesperado, me incomoda. 

Normalmente me prendo a pessoas que muito me dizem de forma interior. Não importa se bebem água do poço, ou de uma fonte francesa. Mas, tem que ter o melhor dentro de si. Gosto de histórias pessoais que me façam crescer, que me façam olhar para meu umbigo e ver o quão ainda sou pequena, o quão ainda tenho que me despreender de mim mesma. E esse final-de-semana, observei homens que choravam. O choro, transmindo uma dor profunda causada por um fracasso, uma certeza de não futuro diante da fome. Mas, diria para esses homens, que não há nada mais incerto do que o futuro. Muitas vezes, é possível uma guinada sem precedentes. A pergunta feita de sonhos é: "Quando será o dia da minha sorte, sei que antes da minha morte, sei que esse dia chegará."

Talvez seja fácil falar, observar, escrever, dar o ombro quando em verdade não sentimos na pele, ou nunca passamos por uma situação de quase miséria; principalmente, quando essa situação parece ser ad eternum. É mais fácil dizer, escrever, citar, parafrasear o poeta, o cantor: depende de nós. Mas, o quão é difícil dar tapa na cara da vida quando há pessoas que dependem de você para comer, vestir.

Meu pai, filho de um português bem situado na vida, soube que a familia sucumbiu a miséria quando o meu vô vendeu todo o patrimônio para tentar salvar suas três filhas da tuberculose. Não adiantou. Para salvar os outros filhos, colocou-os em internatos católicos, eram muitos novos para sentirem a dor do mundo, uma dor que o seio materno não mais conseguiria evitar. Na década de 20, 30...a tuberculose era o cancêr da sociedade. Hoje, quando vejo fotos de meu avô paterno; um homem lindo, alto, de olhos azuis, vejo o quanto dele ainda há por ai, na vida, no mundo. Pais que procuram salvar, a todo custo, seus filhos. Mas, o quanto difícil é quando não conseguem.

Quando somos crianças, adolescentes, sonhamos com nossas carreiras, com filhos, familia, estabilidade. Com o passar dos anos, muitas vezes, nos deparamos com caminhos que sequer sabíamos que existia; algumas cobranças, a corda bamba da sobrevivência. E acabamos tendo que matar um leão por dia, para ter o que comer - só isso nos basta.

Vi o homem chorando por não ter o que dar de comer para seuimgc1791 filho;  a família que se alimenta de farinha,  água, sonhos. Com as mãos na face, ele chora. Procura entender o que houve de errado com seu destino outrora sonhado. As mãos na face, escondem a vergonha. Como é difícil para um homem, dar respostas diante de um prato vazio, contas a serem pagas. E diante dessas situações limítrofes, vejo o quanto difícil é ser pedreiro, carpinteiro, servente...o mundo, de repente, é cheio deles...não há emprego, não há trabalho para tantos nas oportunidades da cidade grande.

Nesse ponto, a mulher é mais forte, mais multifuncional do que o homem. Ela é capaz de se virar em mil. São capazes de serem diaristas, domésticas, fazem unhas, aprendem a cortar cabelos, vendem produtos das revistinhas de Naturas e Avon´s, são sacoleiras, se transformam em  prostitutas, casam sem amor, passam na feira e catam a xepa. Normalmente, os homens sucumbem, afinal, foram criados para serem fortes, os provedores.

Não foi tão somente a tristeza, o sucumbir de uma desgraça social que me afligiu, me emocionou. Afinal, ainda morre-se de fome no mundo. Mas, o amor daqueles homens por àqueles filhos, por àquelas famílias...a vontade de simplesmente querer sobreviver...para eles, por eles. Essa demonstração de amor, de afeto, de laços...sempre me faz acreditar que é possível esse amor incondicional.

E quando conseguem o pouco, o suspiro de felicidade é a certeza de um futuro, muitas vezes incerto, mas ainda assim, um futuro ao lado daqueles que são importantes na sua vida.

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.

Caetano Veloso

 

 

13 comentários:

abb disse...

eu sou mesmo ás avessas!

abb disse...

Querida Beth, as dores do mundo me atinge também. Me pego perambulando por estes lugares, e as vezes, desejaria ter uma vida assim, sem perspectivas a não ser a morte no fim de tudo!

Ela disse...

Aquilo que fere a dignidade humana , sempre me sensibiliza e até mesmo me chateia.
Precisamos urgentemente subdividir os recursos erecuperar o sorriso das pessoas.

Este aqui também é show!

Gabriel disse...

confesso que as mulheres são bem mais fortes que os homens....tenho que adimitir...só nos resta aprender com vcs...

Ricardo Rayol disse...

arrepiante, fiquei sem palavras para comentar.

DM disse...

Fa�o do Rayol minhas palavras...
Absolutament pungene e tocante! Que text�o ....
Beijos

Evelyn disse...

Lindo o texto!

Ah, música é tudo, né?
Não consigo viver sem!

Beijos

Juℓi Ribeiro disse...

Beth:

Marvilhoso texto!
Perfeito!
Você realmente disse tudo...
É sempre enriquecedor
ler os teus textos.
Um abração.

"Todas as coisas já foram ditas,
mas como ninguém escuta
é preciso sempre recomeçar..."

(André Gide)

mundo a fora disse...

meninaaaaa ei meninaaaaaaaa
>.<

linda... te deixei um meme (campanha) no MUNDO A FORA e queria muito q vc participasse, ver lá, lá

te aguardo!

e se for participar me deixa um comentario

bjoka

mundo a fora disse...

Belissimas suas palavras e como vc colocou. hoje aos 29 anos, 3 meses para os 30 te digo uma coisa: eu não acredito! Não acredito nessas lagrimas, não acredito nesses homens. e acabei escrevendo tanto q farei um post sobre o assunto em resposta ao seu.

falarei do meu ponto de vista e como vejo esses homens

posso te perguntar uma coisa? onde vc viu esses homens, e q classe social vc pertence, linda não veja isso como uma critica, ou coisa do tipo. veja apenas como um sinal de alerta. te explicarei no futuro

esse é meu msn para q possamos descutir sobre

te aguardo!

costa.lino@hot...

Beth disse...

Adão BB = morador do nordeste, do sertão, bem sabes do que falo e como me sinto ao ver cenas assim, que ainda fazem parte desse mundo cão.

Ela = o que mais indigna são as faltas de oportunidades, no país que ainda é considerado o celeiro do mundo. Numa aula de tributário discutiamos sobre as o aumentos de aliquotas e o quanto perdemos com a exportação no que diz respeito a alimentação, ao que abastece ao mercado interno.

Gabriel = acho que são mesmo.

Rayol e DM = sei lá...me senti assim na hora que vi. Escrevendo me senti menos emotiva.

Evelyn e Juli = vocês é que são lindas e seus espaços maravilhosérrimos.

Mundo a Fora = Veja bem...falo de homens que vi em filmes, programas de televisão e àqueles que batem a minha porta e os quais me propus a sentar e conversar. Esse texto foi mais ou menos baseado em um filme, baseado em fatos reais. E lembrei-me da historia do meu avô e de um cara, um assistido na defensoria pública, que foi atras de leite para o filho deficiente. Há homens assim sim...é porque não haveria? É claro que há muito comodismo mundo a fora, mas há muita miséria e muita familia passando a pão e água.
Mas legal você replicar...muito legal mesmo. Ficarei aguardando seu texto.

Beijos a todos !!!!

Menina do Rio disse...

Disseste-o bem: gente é pra brilhar, não para morrer de fome; inda mais quando tantos tem uma savana inteira e outros não tem nem mesmo um leão pra matar ao ano e resta apenas verem seus filhos morrerem de fome.
Um texto real e sensivel. Tinha que vir de ti.

Um beijinho

Sandra Leite disse...

Beth querida,

Seu texto trouxe tantos elementos pra pensar. O que me deixa tão indignada é como um país tão rico - sim, estamos entre os 10 mais ricos - pode ser tão cruel, desumano e preconceituoso com relação a desigualdade de oportunidades. Nascemos num país injusto e pouco, muito pouco fazemos pelo próximo. Estamos sentenciados...até qdo?

"a gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte"