Marido costuma dizer que levanto da cama acordando o mundo.”Bom dia Manu”. “Bom dia Nero”. Basta dar um “Bom Dia” que Nero e Manu pulam na cama. Começa a algazarra para tentar acordar o benhê – que resmunga e tenta fugir da farra. Abro a porta e vou verificar o que a Meg andou aprontando no quintal; uma bronca e um afago carinhoso e logo vejo um abanar feliz de rabinho. Pego o telefone e ligo para meus pais e peço minhas bençãos para começar o meu dia.
Após as bençãos recebidas, Deus sempre me testa. Desculpa Deus por dizer não sem culpas. Mas não possso pretender abrir minha porta todos os dias para doar alimentos pereciveis, escutar as palavras vindas de um Testemunha de Jeová que toca o interfone as sete horas da manhã, ou fazer doações financeiras a cada instituição que me telefona e me pede miseros dez reais com uma voz doce do outro lado da linha. Não dá. Não dá para ouvir o grito desesperador de todos aqueles que necessitam de fraldas geriátricas, por exemplo. Se formos olhar o mundo do jeito que ele é, do jeito que ele realmente está, talvez enlouquecêssemos de tanta dor.
Mas creio ser possivel, de alguma forma, demonstrar amor. E, foi pensando no amor que assisti ao velório de Michael Jackson me debulhando em lágrimas. Mas ainda ao ouvir a imensa declaração de amor de Paris. Um amor declarado que silenciou um estádio, engasgou uma humanidade inteira. “Será que Michael sabia que era tão amado? ”
“Meu amor, obrigada, mas não quero” – Respondi . “Obrigada por dizer que sou seu amor – ganhei meu domingo”, respondeu o cara que tentava me vender balas no sinal de trânsito. Outro dia, em um outro sinal, com a bendita mania que tenho de andar com as janelas abertas, falei para o cara que não tinha dinheiro para comprar os morangos que ele vendia. E ele apenas disse que de mim queria apenas um sorriso e pediu um sorriso.: “Vá! Apenas um sorriso”. E sorri para ele. Mas ri e gargalhei sozinha enquanto seguia meu destino. “Cada doido que me aparece” – penso eu. Mas legal que pequenos gestos fizeram desconhecidos transeuntes felizes por breves momentos – ou por um dia inteiro – mesmo correndo o risco de ser assaltada, ainda assim, valeu a pena. E quem disse que não gosto de correr riscos? Prefiro o risco a me tornar uma mesmice bairrista.
Não amo a todos indistintivamente. Não dá para amar o mundo. Não tenho vocação para boa samaritana e nem tenho um espirito desprovido de emoções negativas. Também não carrego comigo culpas pelo mundo estar do jeito que está. Mas gosto de saber quando o “meu amor” de alguma forma atinge alguém. Isso, egoisticamente, me faz bem….além dos muros do meu quintal.
Não dá para dizer “Eu te amo” o tempo todo para o mundo todo e para todos, mas dá para dizer: “Por favor. Obrigada. Desculpa. Com Licença”. E essas quatro palavas mágicas fazem um bem danado e são capazes de salvar um dia inicialmente fadado a não ser um “bom dia”.
E que Deus me perdoe por não sentir culpas. E por achar que alguns diabos também precisam de advogado.