- Tia Beth, tenho uma coisa para te contar. Fiquei mocinha.
- Caraca…que merda heim?
- Pôxa tia…a senhora acha uma merda eu ficar mocinha?.
- Não meu amor, eu acho uma merda menstruar. Vai ser um saco sangrar todo mês, sujar as calcinhas, se policiar nos seus modos ao sentar, cruzar as pernas, não poder usar roupa branca naqueles dias famigerados, pois corre o risco de você parecer a bandeira da Suíça ou da Dinamarca. O pior mesmo é começar a olhar o menino mais bonito da escola como o lobo-mau que vai te desvirginar quando na verdade ele não tá nem ai para você, ele só pensa em jogar bola com os amigos e você, na visão dele, ainda é um ser esquisito rodeada de outros seres mais esquisitos. E tua avó vai ficar falando, tua mãe te orientando, teu pai tendo ataques de ciúmes, teu irmão te dedurando e tuas tias e primas vão dizer: parabéns. E as cólicas? PQP…que merda são as cólicas que te deixam travada em cima de uma cama e tomando buscopan. Pior mesmo é ouvir a avó falar: Quando casar passa…
- O que tia? Como assim?
- Por sua vez, vai ser lindo ver os seios despontarem, comprar o primeiro sutien, a vaidade desabrochar, o brilho no olhar acontecer, o coração palpitar…quando ele, o futuro lobo-mau, cruzar por você. O desejo do primeiro beijo, o primeiro arrepio involuntário, a primeira espinha, as formas tomando conta de você, o diário secreto, os cadernos de respostas e perguntas, o segredos trocados com as melhores amigas de toda uma vida. Ahhhh meu amor, parabéns ! Posso contar para o tio benhê?
- Tia, você é muito engraçada, por isso que eu queria logo te contar a novidade. Claro que pode contar ao tio.
E quando o tio soube, foi logo dizendo: Fudeu…vai ser àquele esquenta em cima, esquenta em baixo,…cuidado heim mocinha! Agora é que o bicho pega. Esse lance de ser adolescente hoje em dia é uma merda…sexo, drogas, internet, rock n´roll…cuidado…muito cuidado.
- Ai credo tio! Foda ter tios tipo assim…muito fodas.
Em unissona voz, proferimos: “olha o palavrão…mocinha”
Agora, findada as férias, longe e já saudosos dela ficamos olhando as fotos tiradas e os videos editados, comentamos: “Ela está ficando linda, uma mocinha. E que linda moça
Menina e Moça
(Machado de Assis)
Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.
Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem coisas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.
Outras vezes valsando, e seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.
Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir asas de um anjo e tranças de uma huri.
Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.
Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.
Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.
Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.
Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!
Ah! se nesse momento alucinado, fores
Cair-lhes aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar dos teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.
É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!