terça-feira, 14 de outubro de 2008

A máquina e o gloss

 

Tem coisas que uma mulher não deveria nem chegar perto. A furadeira, àquele objeto barulhento e tipicamente masculino, é uma delas. Por tabela,  manusear uma furadeira requer um certo conhecimento técnico sobre tipos de brocas, buchas e parafusos, além  dos espaços certos onde fazer determinado furo, caso contrário, corre-se o risco de furar um cano ou levar um choque.

2007010902565515 Anos atrás comprei uma furadeira. Não que tivesse a intenção de colocar nela minhas macias mãos, comprei para ter o dominio do sim e do não para àqueles machos que ousassem pedí-la emprestada. Afinal, a furadeira é minha e tão somente minha. Eu teria o poder do sim e do não para o Severino – o pedreiro da familia, papai, maninho e mais recentemente, o benhê.

Depois de longos anos, com a casa nova, a divisão de um espaço egoista com um ser alienigena, chegou a hora de renovar coisinhas - os quadros. Compro um quadro ali, outro quadro acolá, meus sininhos e mandalas de São Tomé das Letras/MG, outra coisa para pendurar mais adiante e outra mais ali perto. Mas sempre tinha que esperar o benhê chegar do trabalho e da faculdade para decidirmos juntos onde pendurar e para que ele, com suas fortes e firmes mãos, usasse a furadeira. Muitas vezes tinha que esperar o final-de-semana para evitar burulhos que incomodassem o vizinho ou um sonoro e já aguardado: “tô cansado”.

Dia desses, comprei um quadro e decidi furar a parede – sozinha. Sento no chão, olho àquele ser bruto, chamo meu primo, tomo lições sobre tipos de broca, buchas e parafusos e mãos à obra. Pego a trena, meço daqui,  meço dali, faço marcações e estou pronta. Meu primeiro contato foi um sucesso. Nada de corpo tremendo, mãos inseguras, equipamento caindo no chão e rodopiando querendo me pegar; foi tão simples quanto matar uma barata.

Agora, tenho a força da mulher em dominar uma máquina burra que depende de minhas suaves mãos para poder funcionar. Furo feito, quadro pendurado, nada como um creme de ervas para suavizar as mãos e um gloss básico para dar um brilho no dia.

Liguei para o benhê e disse que tinha furado mais uma parede e pendurado mais um quadro.  Ele riu e perguntou se não havia feito mais uma cagada. É claro que não, dessa vez usei a broca certa.

 

2 comentários:

Adao Braga disse...

Fiquei aqui imaginando você com estas mãos macias, pegando na broca, e também enfiando os parafusos nas buchas.

Literalmente!

Murdock disse...

Lá em casa foi minha mãe quem ensinou a usar furadeira. Jeito, brocas e tudo.