segunda-feira, 9 de junho de 2008

O Nosso Apartheid

Daqui a pouco,  utilizarei meu status quo  de "ser pardo, bronzeado, portadora de um DNA surubático" e farei jus as cotas de cidadã a que tenho direito. Isto é, se antes não me obrigarem a optar entre ser branca, ou negra, segundo um projeto que está rolando algum tempo lá pelas bandas dos engravatados . Mas, vejam bem...meu DNA bate tambor lá nas bandas do Xingu, como poderei escolher entre o que sou e o que serei?

Entramos no século XXI ainda discutindo o sistema de cotas num país, segundo dados do IBGE, de clara predominância de mestiços, pardos.  De repente, nós que éramos orgulhosos da nossa miscigenação, do nosso gradiente tão variado de cores, fomos reduzidos a uma nação de branclivros1os e negros. Pior: uma nação de brancos e negros onde os brancos oprimem os negros. Outro susto: aquele país não era o meu. (Ali Kammel - Não Somos Racistas - Ed. Nova Fronteira).

Sou contra e totalmente contra o sistema de cotas. Beneficia-se, em tese, a cor de sua pele, buscando corrirgir erros de um passado colonialista e tenta-se tapar com a peneira esse maldito preconceito velado que carregamos dentro de nós, bem como, a péssima qualidade de ensino que por aqui existe. Carregamos esse preconceito? Mas, preconceito, a meu ver, se resolve em berço, dentro de casa, na educação, na base familiar. Base familiar esta que deveria também verificar a qualidade de ensino que é fornecida aos seus filhos. E para os preconceituosos de plantão, no país há leis sérias que punem o racismo.

No fundo, estão segregando toda uma sociedade quando resolve-se beneficiar fulano ou beltrano tão somente por seu tom de pele, quando em verdade; os direitos deles que são iguais aos meus, são previstos constitucionalmente. Será que há uma crença implicita na incapacidade de alguns em sobressair em estudo, aprimoramento, dedicação?  Mas não sou eu que impõe essa incapacidade. Que culpa tenho eu se o ensino do meu pais nas instituições públicas, é deficiente? Que culpa tenho eu se meu jovem se interessa em ler Harry Porter ao invés de ler Monteiro Lobato? Se o brasileiro, em média, lê apenas 1 livro por ano? Que o jovem de hoje busca informações tão somente em internet, preterindo os sebos e as bibliotecas públicas?

Chove ações impetradas pelos vestibulandos que são preteridos em cor num exame de seleção quando suas médias são capazes de lhe darem excelentes colocações. De repente, o conhecimento, as horas perdidas em estudo valem muito menos do que o tom de pele. Daqui a algum tempo choverão mais ações, desta vez, sobre cotas em concursos públicos. Alguns municipios já colocaram em seus editais tais cotas. E quero mais é que chovam, caia um dilúvio de ações, pois creio que o sistema de cotas fere profundamente nossa carta maior e o princípio da isonomia que nela é explicita.

Hoje, temos uma horda de bacharéis sendo despejados pelas faculdades, pessoas que passam anos e anos sem se dedicar aos estudos, achando que uma graduação vai lhe abrir portas para algo. E querem saber? Se não houver um diferencial, um plus a mais nesses estudos acadêmicos, você vai ser mais um no mercado de trabalho. E isso serve para negros, brancos, amarelos, vermelhos. Mais do que oportunidade a serem fornecidas  e abertas  com o sistema de cotas, estão deixando de dar condições para aprimoramento e jogando nas ruas péssimos profissionais. Pensam que nivel superior é pré-requisito para alguma coisa. Ledo engano. Nossas instituições acadêmicas ainda pecam em estrutura técnica, laboratorial e muitas vezes o "correr por fora" é que faz a grande diferença.

Vergonhoso não é a falta de oportunidade, pois oportunidade nós fazemos e criamos, quando nos dedicamos. Vergonhoso é ter um sistema de ensino que aprova automaticamente os estudantes do ensino público, para evitar evasão escolar. Aprova-se pessoas que não sabem ler, escrever, raciocinar em cima de assuntos do dia-a-dia. Vergonha é não ter uma política séria de educação e investimentos na educação.

Tudo isso poderia ser evitado com um excelente sistema básico de ensino, contudo, é mais fácil distribuir cotas. Esqueceram  apenas de avisar  que no mercado de trabalho, a seleção, a dinâmica, os testes, as entrevistas acabam selecionando os melhores, os mais capacitados, os mais eficientes.

Uma sugestão: Por que não se cria cotas para o estudo de outros idiomas? Por que não criar cotas para a formação de técnicos em petróleo, em meio ambiente e assim evitar de vermos nossas reservas nas mãos de estrangeiros competentes? Por que não criar cotas para os descontos ou gratuidade na aquisição de livros universitários, que são carérrimos? Por que não criar cotas para o direito de frequentarem excelentes cursos pré-vestibulares, ou preparatórios de concurso?

Não adianta você colocar alguém direto e reto numa academia e não dar à esse alguém condições para que ele possa progredir, se aperfeiçoar, crescer como profissional. Amanhã, ao despertar de uma nova aurora, acordaremos para uma legião de desempregados com nivel superior.

Agora, estuda-se a possibilidade de aprovar, num todo,  cotas nos concursos públicos. Daqui a pouco, a cota, será obrigatoriedade nas empresas privadas. Ora, num país de mestiços, pois é isso que somos, tais distinções não deveriam existir. Obriga-se a isso e aquilo quando caberia aos orgãos governamentais não mais suprirem sua ineficiência e incapacidade de gerir, se desculpando com a sociedade oferecendo tão somente cotas.

Querem distribuir cotas? Que distribuam. Mas, a meu ver, o critério sócio-econômico ainda seria o mais justo, pois a pobreza e as limitações que ela impõe e que são cruéis atinge igualmente brancos, negros, pardos. Mas, deve ser dificil para um gestor, ou para as cabeças pensantes desse país admitirem o grande indice de atividades informais e que um povo, que carrega no seu dna todas as cores, ainda sobrevive com uma merrequinha de salário mínimo. Mal dá para comprar o arroz...

Ao final, cabe lembrar que o país já possui leis que previnem contra o preconceito racial, e a própria Constituição prega a isonomia das leis. Ali Kamel bem o diz: “Num país em que no pós-Abolição jamais existiram barreiras institucionais contra a ascensão social do negro, num país em que os acessos a empregos públicos e a vagas em instituições de ensino público são assegurados apenas pelo mérito, num país em que 19 milhões de brancos são pobres e enfrentam as mesmas agruras dos negros pobres, instituir políticas de preferência racial, em vez de garantir educação de qualidade para todos os pobres e dar a eles a oportunidade para que superem a pobreza de acordo com os seus méritos, é se arriscar a pôr o Brasil na rota de um pesadelo: a eclosão entre nós do ódio racial, coisa que, até aqui, não conhecíamos”.

2 comentários:

adao braga disse...

se o financiamento dos estudos fosse melhor... se por exemplo, eu pudesse ter algum dinheiro para estudar e sustentar a familia, agora mesmo iria fazer 3 cursos que estão me fazendo falta...

E o pior é que por aqui, a crise passa por estes caminhos também. Por vezes atendo alguns professores das instituições de ensino, e deparo com um semelhante despreparado, mas tem o canudo dizendo que é preparado.

e como conseguiu? he he ha ha ha

Anônimo disse...

Moça. Estudo na UNB e por aqui somos totalmente contra as cotas raciais, pois não são dessa forma que resolveremos o problema de inclusão no país. E a galera aqui da UNB tem reagido mal, já acontecendo o que profetizou Eli.
Mandou bem. O problema é encarar de frente o investimento em educação, ensino base.
Abraços Thiago