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sábado, 23 de janeiro de 2010

Um homem precisa viajar

“Um homem precisa viajar.
Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV.
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor.
Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto.
Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos,
e não simplesmente como é ou pode ser.
Que nos faz professores e doutores do que não vimos,
quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

(Amir Klink)

Passei o dia de ontem revendo fotos, videos, lembranças que estão guardadas em cd´s, em albuns, na memória. Não foi saudosismo, apenas me vi organizando recordações antes das próximas edições. Qualquer dia colocarei tudo em slides, pois mesmo com tanta tecnologia disponível me parece que tudo tem vida útil.  Dia desses, descobri que os disquettes tinham vida útil. Triste descoberta. Ainda os guardo na esperança de algo novo recupere velhos dados.

Foram tantos os lugares pelos quais passei e serão tantos outros ainda a ir…que já sinto saudades de casa. Mas é bom e faz bem sempre “ir ver”, como finaliza Amir.

 

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Você sabia?

 

Ontem, resolvi cabular aula. O que? Vou melhor me explicar. Ontem, matei aula. Deu no saco, não estava a fim de passar o dia inteiro na faculdade, estava com preguiça, sonolenta, cansada. No entanto, ficar em casa, além das tarefas domésticas, há também o risco de você olhar para os livros, anotações, cadernos e perceber que a cada passagem descompromissada pela área de estudos os mesmos livros, anotações e cadernos criam vida e ficam  lhe dando "bom dia", "boa tarde", "boa noite". (Eu heim?) 

Pronto. Fiz de conta que fiz comida, lavei roupa, arrumei a casa e sentei para organizar meus alfarrábios acadêmicos.  Estava estudando e fazendo pesquisas para um trabalho de Direito Internacional Privado sobre a situação dos refugiados, bem como leis e tratados internacionais sobre a matéria. Enquanto pesquisava, observei que num dos sites havia uma coluna lateral com àquele saudoso "Você Sabia?" totalmente voltado à informações dentro da matéria que buscava.

Pronto. Me deu uma saudade da Rádio Relógio que fornecia a hora certa e uma certa dose de informação. Numa sociedade interligada em redes, fiquei pensando nas gerações que foram criadas ouvindo a "Rádio Relógio", principalmente a galera dos rincões desse país. Pensei também nas Macabéias que quebravam suas solidões na madrugada entre uma interrogação e outra.

Pronto. Bastou viajar na maionese para esquecer da situação dos coitadinhos dos refugiados que são atirados ao mar quando descoberta sua clandestinidade nos navios cargueiros.

Me disseram que a Rádio Relógio ainda sobrevive, mas sem àquele charme da pausa do minuto a minuto. E como recordar é viver e eu vivo para te esquecer, recordei-me da época de saia plissada, sapatos bonecas, meias 3/4 quando ficava ouvindo sonolentamente a Rádio Relógio para não chegar atrasada. Quando chegava no colégio, outros colegas comungavam desse ritual.

- Você sabia?

- O que?

- Que o macaco deu bom dia.

Você Sabia?

Se alguém encher o teu saco, você precisa usar 42 músculos da face para franzir a testa. Mas, só precisa de 4 músculos para esticar o braço e dar um soco na cabeça desse chato! (muita calma nessa hora...no stress, yes reggae).

Se tentar impedir que um espirro seja expelido pode morrer ao causar a ruptura de uma veia no cérebro ou na nuca. Se mantiver, à força, os olhos abertos durante um espirro é possível que eles saiam das órbitas. (que cena dantesca e bizarra)

Para se fabricar apenas 300 cigarros, se destrói uma árvore. No Brasil, são consumidos anualmente 128 bilhões de cigarros, o que corresponde à destruição de 426 milhões de árvores! (os fumantes são os culpados pelo desmatamento)


Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por uma colega de moradia, Maria da Penha, ligava bem baixinho para não acordar as outras, ligava invariavelmente para a Rádio Relógio, que dava “hora certa e cultura”, e nenhuma música, só pingava em som de gotas que caem – cada gota de minuto que passava.

 (Clarice Lispector, in A Hora da Estrela)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Um suco, alguns biscoitos e um outro ponto...

 

tempo-livre-aprenda-pontos-basicos-trico-460x345-br Já começo dizendo: Mentira...não sei fazer crochê, tricô e nem tenho-os como hobby. Minhas mãos, não são tão pacientes assim. Minha mente funciona a mil por hora e o crochê me limita, me deixa quieta, meio que parada na vida. Mas, admiro muito quando vejo pessoas tricotando ou fazendo crochês, dando vida a linhas. Dia desses, assistindo ao Jô, acho que num reprise de programa, me diverti vendo Marisa Monte tricotando.

Bananal, é uma cidade de SP que faz divisa com o RJ. Faz parte do roteiro da Serra da Bocaina que envolve Cunha, Bananal, São José do Barreiro...entre outras cidades históricas, de grandes fazendas da época do café e economia voltada ao turismo. Em muitas fazendas, ainda se conserva a senzala daquelas épocas.

Nessas três cidades há um espaço muito grande para coisas artesanais. Em São José do Barreiro, são as cachaças e os passarinhos da madeira. Em Cunha, a cerâmica e a cachaça de vários sabores feitas em alambique. Em Bananal, são as roupas e utensilios de barbante. Lembram uma época em que era febre os biquinis de barbante? Então, eles vinham de Bananal. E era muito gostoso ir na cidade e ver àquelas senhorinhas nas janelas tricotando e dando forma aos barbantes. Será que elas sabiam que seu trabalho em mãos calejadas iriam parar nas praias mais famosas do mundo? Agora, fiquei imaginando o quanto a indústria de corpos bronzeados não faturou em cima daquelas senhoras.Tudo o que é artesanal, tem que ser valorizado. As pessoas não imaginam o quanto de bucólico havia por trás daqueles biquinis de barbantes e crochês.

Frequantava Bananal por outros motivos, adorava ir numa fazenda onde há detalhes em ouro na sua arquitetura - Fazenda Resgate, ou então, passar um final de semana no mesmo lugar onde Dom Pedro I passava dias e dias. É bucólico, coisas de interior mesmo...àquele interior onde não se cansa de não fazer nada. E é tão perto do RJ que num piscar de olhos já estava andando pela ruas dessas cidades. A região da Bocaina é logo ali...

Dona Julia já não está entre nós. Tinha 15 anos quando a conheci e ela deveria ter uns 90 anos. Passava longas tardes com ela, aprendendo a tricotar e fazer crochê. Eu a achava uma vizinha tão rabujenta que meu desafio era conviver com ela, aprender com ela. E com ela, fiz meus primeiros pontos e acabei fazendo um paninho daqueles que se colocam em cozinhas, bem como, fazer àqueles detalhes que se colocam em panos de pratos. Dona Julia tinha um papagaio e ela sempre dizia que ele sobreviveria a ela, apesar da idade que já tinha.  Acabei largando o crochê e tricô, não tive paciência para continuar aprendendo sem os ensinamentos de Dona Julia. Acabei deixando na caixinha, as linhas e agulhas meio que perdidas no passado de uma adolescente.

Hoje, fui a um armarinho. E àqueles materiais me trouxeram a lembrança de uma época onde eu fazia quadros de linhas matizadas, crochês e tricôs.

Acho que voltarei a fazer os quadros. Tentarei aprender pontos de cruz...meu sonho é fazer a Santa Ceia em pontos de cruz. Mas, como é dificil encontrar outras "Dona Julia" disponíveis, ensinando na sala de sua casa, entre um suco, alguns biscoitos e um outro ponto.

 

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Cosmopolita

Cansa esse papo de dengue para cá e dengue para lá. E adianta? O problema é mais do que saúde pública, é pura falta de  educação e higiene de um povo. Então, até o próximo verão com a epidemia de dengue 4 assustando, novamente, a todos. Descredito? Não. Mas, o que esperar de quem sequer se lembra em quem votou no último pleito eleitoral?

Uma amiga me disse após perceber que estou com um atchim alérgico daqueles e causado pelo envenamento voluntário de inseticidas e repelentes: Beth, tô nem ai e nem me enveneno...bebo tanto que se eu morrer o mosquito morre junto e ainda vai sofrer de coma alcoolica. Eita bom humor do cacete.

E quer saber? Quanto mais preocupado ficar, mais chama o problema para si. Tinha tanto medo do apendice, que um dia ele necrosou, fiquei na CTI, operei duas vezes e quase que passo dessa para melhor. Tinha tanto medo de furar o pneu num lugar ermo que, um dia, os dois pneus furaram num lugar ermo. Tinha tanto medo que o carro quebrasse no meio de um engarrafamento e subindo uma ponte que, ele quebrou no meio de um engarrafamento e subindo uma ponte.

Hoje? Passo até na Faixa de Gaza de madrugada, a 150 km por hora. Afinal, moro no Rio 40º, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos. E não vou deixar de viver por causa de um mosquitinho safado, nem por causa de bandidões armados. E nem vou ficar andando com o famoso adesivo de um haras para condicionar conhecimento a segurança do meu carango. E se eu passo em área de rival? Nada de correr riscos. Deixa levar, o seguro paga.

Voltando a observar os transeuntes, nem tão transeuntes assim...

Uma das coisas que mais lhe dá prazer, é viajar. Mais do que gozar, comer, beber, dançar, voar. Toda e qualquer trip, é um gozo diferente. Drena pura, causada pela expectativa de sair fora uns dias. Destino? Qualquer destino, de preferência com o Guia 4 Rodas nas mãos, amigos na mala e um benhê no coração. O simples fato de conhecer novos lugares, diferentes cheiros e sabores a faz delirar, como se estivesse ouvindo Enya cantando do seu lado e com ópio na mente. Uma insana, que sente o cheiro da mata, do verde molhado que ainda beira nas estradas.

O cheiro do eucalipto na subida da serra, ainda é presente quando andou de moto pela Dutra com destino à Campinas. Àquele frio de cortar os ossos ao chegar em Jundiaí, se torna, ainda, inesquecível. 

Gosta de retornar à lugares os quais seus pés descalços já pisaram. Gosta de ver a mudança desses lugares - alguns não mudaram, outros estão irreconhecíveis e descaracterizados. No entanto, sente um loucura quixotesca em pisar nos lugares que nunca foi e, se um dia lá estiver, talvez nunca mais retorne, a não ser nos seus saudosos desejos.

Quer conhecer o sertão e o deserto do Jalapão. Quer encontrar seu oásis no mandacarú e saciar sua fome comendo calango. Calango? Para quem já comeu jacaré e cobra em Corumbá, um calanguinho frito não faz mal a ninguém, melhor do que passar fome - Ela sempre diz.

Desejar não faz mal, só nos obriga a planejar para que o desejo se concretize. Cruel são as recordações. Não sei se é tão bom lembrar, recordar, pois dá vontade de retornar, entrar na máquina do tempo e reviver àquela madrugada ao redor da fogueira, bebendo vinho do porto no gargalo. Vinho do porto no gargalo? Acontece...

A revoada das andorinhas na praça central daquela pequena cidade, na hora da Ave Maria. A igreja tocava Ave Maria e o bando de andorinhas voavam fazendo daquele espetáculo, uma oração. A cidade não é mais tão pequena. Que pena!

Os pescadores que a ensinaram a mergulhar no Boqueirão, a limpar lula e comer fruta pão. Àquela aldeia que só conhecia a luz do sol e a energia de um gerador que ora funcionava, ora não funcionava. E havia o neto de pescadores que abria seu sorriso toda vez que olhava a cativa traneira chegar no cais. E que neto!!! Moreno, alto, bonito e sensual....uma perdição.

Lembrava-se do cheiro fétido dos mercados municipais por onde andou e dos sabores que ali conheceu, experimentou. Ainda ouvia o burburinho das feiras de mangaio.

Os quiosques na estrada, onde se vendia whisky de alambique; deveria estar a caminho daquela pequena cidade, onde a única diversão era beber cachaça.

Àquele rio de azul interiorano, de águas cristalinas, mas que pede socorro quando chega na capital.  Ainda ouvia as corredeira de um outro rio cantado nas modas de viola.

Não gostava de retornar à lugares onde todos vão, estão, foram descobertos de uns anos para cá.  Lugares que viraram muvuca de gente em feriados. Nunca mais haveria de retornar àquela praia que não é mais a mesma praia, onde as ondas deixavam desenhos na areia. Mas, as vezes, é bom retonar e descobrir que ali perto há um lugar onde poucos sabem chegar. Tem que entrar na mata cheia de cactos, subir nas pedras, pisar em conchas e descobrir um novo pedaço de mar. Quem sabe, agora, não retorne e veja por um outro ângulo os golfinhos e baleias que por lá ainda aparecem?

Foram tantos os lugares. E ainda muitos estão por vir.

Pena que as andorinhas não voam mais na praça central. "Até as árvores daquela praça foram cortadas", disse o vendedor de refrigerantes.

- Para tudo! Ali tem uma placa escondida no mato. Vamos conhecer essa praia?

E como é bom ser reconhecida, tão somente pelo seu sotaque.

- Dona! A senhora é carioca. Meu sonho era ser carioca, acho tão bonitinho como vocês falam.

- Jura mermão? Caraaaaaca brother, irado essa parada de sotaque ae. Mas se liga, meu sonho era ser cosmopolita bicho.

 

Sou um pouco de todos que conheci,
um pouco dos lugares que fui,
um pouco das saudades que dexei,
sou muito das coisas que gostei.
Entre umas e outras errei,
entre muitas e outras conquistei

Ramon Hasman