Relendo um comentário que fiz em um texto de uma amiga, disse: “O ônibus chamado mundo, não esperará por mim”. Estava naqueles dias de tempo corrido, atrasada para tudo, tendo o relógio como pior inimigo. E presa ao texto da minha amiga.
Muitas vezes tenho raiva de ficar sentada, criando calos no pulso, dores na cervical, ficando cada dia mais limitada visualmente. “bem vinda ao clube” – me disse a oftalmologista em minha última consulta. A academia ainda me deixa louca, insandecida, mas me salva ao exigir todos os minimos detalhes da bibliografia de uma obra.
Gosto daquele prazer que tenho ao olhar, a certa distância, uma obra de arte numa exposição. É como percorrer a lentos dedos as prateleiras de uma grande livraria, ou de um empoeirado sebo. É como deixar renascer a vontade de passar seis longos meses, em uma rotina diária de horário comercial, só para conhecer todo o Louvre. Para certas coisas a pressa é inimiga da arte.
Quero aquela “pressa” que encontro no canto gregoriano daqueles alunos do famoso mosteiro, numa cidada interiorana, nas serestas das sextas-feiras, no cheiro do eucalipto na serra, no rir dos malucos que acordam cedo e catam o cogumelo na bosta da vaca aos primeiros raios de sol. No dirigir tranquilo enquanto subo as montanhas de Minas Gerais e paro para admirar as hortênsias que encontro no caminho. Como são belas as hortênsias azuis!
Faço parte dessa vida corrida, eu sei. E para ela devo cada insanidade que tenho o prazer de não economizar, de não guardar para minha lápide ou para as meias verdades que alimentam os outros que vivem no limbo e na degradação de suas verdades absolutas. Vivo e salto de bungee jump o tempo todo – me permito. Mas não gosto dessa vida na velocidade de um mirrage, prática em sua virtualidade, de saltos altos e tailleurs em crepes de seda, com horários de partidas e chegadas, de tempos contados, com olheiras que entregam as noites mal dormidas, dos dedos ágeis por minuto numa prisão por informações em páginas que mudam como a velocidade da luz. Não gosto de abrir páginas. Gosto de folhear páginas e saber que posso vê-las amarelar, enquanto tomo meu cappuccino e fumo meu cigarro.
Ainda leio o meu jornal de domingo na manhã de segunda-feira.