quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Algo de muito podre....


Ontem, durante minha viagem (desta vez a trabalho), fiquei com dois textos na mente. Prometi a mim mesma que assim que chegasse em casa iria postá-los por aqui; ou postaria um dos dois. Ao final, acabei fazendo outras coisas, poetisando, escrevendo asneiras, ajeitando fotos, olhando os e-mails, fazendo algumas ligações...e acabei me dispersando dos textos.

No silêncio da alta madrugada, entre o ajeitar de coisas, ouço o grito silencioso de Carmem...o mesmo grito que antes estava prestes a fazer, mas não o fiz. (vejam no espaço dela)

"Polícia pára quem precisa. Polícia pára quem precisa de polícia" - Fiquei com essa música na cabeça.

O Estado do Pará, muitas vezes nos brinda com reportagens que vêm a midia como uma bomba no que se refere ao claro desrespeito a dignidade humana e aos crimes ambientais. O Estado é sabidamente conhecido por ser o campeão mundial no trabalho escravo e ainda um grande captador de menores para o trabalho em carvoarias; muito se diz também nos crimes de encomenda motivados por grilagem de terras e falcatruas políticas de nossos anões do legislativo. Os crimes de Anapu e Altamira nos chocaram por sua pervesidade. E agora, em Abaetetuba, o descaso de autoridades que, deveriam zelar, cuidar, proteger, mais uma vez nos deixa letárgicos diante da clara omissão do Estado na desproteção com nossas crianças. (Nada contra o Estado do Pará, ou aos paraenses - apenas fatos ainda vivíssimos na memória e muito bem registrados na internet)

Ontem, durante minha viagem li uma pequena nota no jornal: "Menor sofre abusos sexuais por parte de presos ao ser mantida por cerca de um mês, presa numa cela com 20 homens em Abaetetuba, no nordeste do Estado do Pará". Ao chegar em casa, tarde da noite, tal notícia era pauta do famoso jornal televisivo.

Ela tem apenas 15 anos...é uma criança. Quer queiram, quer não queiram...é uma criança, num corpo de mulher, mas apenas uma criança. Ela deveria estar protegida sob o manto sagrado de nossa Constituição e do Estatuto da Criança e do Adolescente.


No Direito, dizemos que o Estado responde, de forma objetiva, por atos omissivos e comissivos de seus agentes públicos. Tal preceito é norma constitucional e está claramente bem descrita no artigo 37, parágrafo 6º de nossa Constituição. Qual o dever de um bom policial? O que é ser um bom policial? Qual a função da policia? Qual o dever do Estado? Qual a responsabilidade do Estado diante de tamanha hediondez?

O superintendente da Policia Civil do Estado do Pará, em entrevista disse: Se ela dissesse que era menor seria dado um outro procedimento. Meu Deus! Se ela fosse maior, então, permaneceria na cela com mais de 20 homens e com certeza sofreria os mesmos subjugos sexuais que foram impostos a menor - talvez piores.

Mais do que um descaso com uma menor, que por si já bastariam vômitos sociais e o levantar da bandeira do Estatuto da Criança e do Adolescente e da dignidade humana explícita em nossa Constituição; mais uma vez é demonstrado o claro desrespeito à mulher por parte de nossos agente públicos. Então, se ela fosse maior, seria mais fácil culpá-la por praticar sexo com os presos, seria mais fácil culpá-la da curra sofrida. Afinal, ela seria maior, responsável civilmente por seus atos, teria voz para gritar e ser ouvida - se quisessem ouvir.

Enquanto lia a pequena nota no jornal local fiquei pensando na mãe dessa menor e em tantas outras mães que sofrem ou sofreram com o descaso por parte das autoridades. Pensei também em um pai, carregando o corpo de seu filho dentro do carro, pois o rabecão por 7 horas não havia providenciado o traslado do corpo ao IML de Nova Iguaçu. O próprio pai tomou a atitude, encobriu o corpo do filho, colocou no carro e levou ao IML. Talvez, esse pai, ainda responda a um processo por desfazer a cena do crime e para tampar o buraco escandaloso de uma omissão do Estado.

Nossa! O que posso dizer Cármem? Você não sabe o quão é cruel ter cultura e saber jurídico; as lágrimas que não mais descem diante das mazelas sofridas e retratadas em jornais diariamente.

Diante de meus olhos há uma foto de uma criança de 10 anos, um corpo inerte em decomposição num matagal após clara violência sexual; e ainda tenho que dizer quais as feridas incisivas e necessárias para uma investigação - apenas e tão apenas sob o prisma da Medicina Legal.



Minhas sinceras desculpas mãe e pai dessas meninas e meninos, pois sou parte integrante dessa sociedade letárgica em valores e moral, em luta pela dignidade da pessoa humana...talvez meu papel seja o mais rápido possível terminar minha faculdade e tentar...tentar...tentar...sei lá o que.






14 comentários:

smpc83 disse...

É muito triste haver episódios como o desta criança!!!
Beijinhos

Cármen Neves disse...

Querida Beth!Passa no meu blog e leia o post de hoje. Beijos.

Ricardo Rayol disse...

Eu não peço desculpas não, essa raça que descreveu não é a mesma que a minha.

Pena disse...

Querida Amiga:
Louvo e enalteço a coragem revelada na Defesa dos Direitos Humanos/Direitos das Crianças.
Intolerável, inimaginável, impensável, um acto de verdadeira selvageria pessoal, humana e social que descreveu.
Quando poderão pais, professores, educadores e toda a gente de bem descansar com situações horripilantes, como a que narra?
Quando existirá a plena reciprocidade de respeito e justiça por todos os Cidadãos e Cidadãos/crianças indefesos e frágeis, em que possam viver em segurança e bem-estar a que têm pleno direito?
Louvo a sua atitude.
Mostra a sua profunda e grandiosa força de carácter? Gigantesca!
Creio, que ainda teremos muito a fazer, a alterar, modificar, as mentes preversas, maldosas e selvagens sem princípios e valores que agem sem qualquer punição ou lição exemplar, ao olhar de toda a gente.
Fico mais tranquílo e sossegado quando os nossos filhos, as crianças de todo o Mundo possam usufruir de um profundo bem-estar, segurança e respeito, enquanto Seres Humanos/Pessoas.
Brilhante atitude! Sublime e corajosa.
Um Bem-Haja do tamanho do Mundo pelo que é e representa para mim e todos os que a lêem atentamente e lhe dão o devido valor. Imenso! Para mim, incálculavel e Muito Precioso.
Beijinhos amigos de muita estima, consideração e fascínio.

pena

Pedro disse...

Beth minha amada.
Veja bem, eu também peço desculpas mas pôr não ter coragem de dar a cara a tapa, de expor idéias de ter atitude como as que você tem. Manda na real, na bucha, na cara e foda-se o sistema.

Não faço parte dessa corja, mas meu silêncio, minha omissão faz com que corja desse tipo ainda existam.
Tenho certeza de que serás uma grande defensora dos direitos humanos, uma brilhante advogada - trate logo de concluir essa faculdade. Esse teu texto além de conter brilhante dissertação, ainda contêm pesquisa, conhecimento e informação.

Parabéns a você e a Carmém - pois foi essa sincronia de ambas que não deixou essa ideia e indignação se perder em notas miudas de jornais.

Beijão gatona

Paola a Estranha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paola a Estranha disse...

É querida muito triste saber destas notícias...
Vivo no mundo da imaginação quando acordo vejo estas coisas e sinceramente não aceito isso!
Bjo

DM disse...

Nossa BETH, O QUE DIZER ????
Como você, e como profissional do "direito", que deveria ser o certo, o justo e o correto, (a palavra fala por si mesma) fiquei tão abismada com o episódio quanto você .... E agora as autoridades locais farão diligências ...

Como mulher, como mãe e como profissional do direito, me sinto absolutamente revoltada com esse estado de coisas.... Pára mundo, que eu quero descer !!!

De qualquer forma, esse post é pelo menos reconfortante, na medida em que pessoas como você e nós repudiam e não aceitam esse Estado de coisas !!!
bEIJOS

MUTUMUTUM disse...

Putz! O horror, o horror! Esse é o Estado que tem como fundamento CONSTITUCIONAL a "dignidade da pessoa humana" (art. 1o da Constituição Federal). É o Estado que tem por objetivo resguardar os "superiores interesses da criança e do adolescente". É o Estado que, se não existisse, daria tudo na mesma... só que sem os impostos e taxas exorbitantes que pagamos até a morte!

Olha... nem tenho como dar um "lindo sorriso" agora! Só dá pra fazer uma cara de bravo... ou de choro, agora...

Fernanda disse...

Uma sociedade que não protege as suas crianças é uma sociedade sem futuro, é uma cultura em involução, Beth. Fazeres parte do sistema e nadares contra a maré é tudo o que podes fazer de melhor. Sei que és corajosa o suficiente para isso!
Continua gritando, que outras vozes se juntarão à tua.
Beijo grande!

MamaNunes disse...

Pois é Beth, estive aquí ontem, lí o post, fui tocada e corri pra conhecer a Carmem. No fim esqueci de deixar o coment. Eu ando assim chocada com tudo. E quanto maior a tragédia, maior a sensação de impotência, mas o que dá fazer fazer a gente faz, nem que seja dar um grito!
Mandei um email pr'oce...vc leu?
deixo bjks e espero sua visita.

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Felipe disse...

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Namastes

Beth disse...

Nem comentarei nada
Vocês dizeram tudo!!! E isso é bacana.
Carmem eu que te agradeço pelo teu grito silencioso na madrugada. Teu clamor se espalhou e fez corações pensarem. Isso é verdadeiramente importante.