Maria é uma argentina que me encontrou na net, no meu blog de turismo, e contratou-me para um city no Rio. Exigência de Maria: Nada de pontos turisticos convencionais, cheios de turistas assim como eu. Quero conhecer onde tudo começou, o centro do Rio de Janeiro, Santa Teresa e visitar sebos. Não estranhe meu pedido, mas os livros na Argentina são caros e sou apaixonada por literatura brasileira.
Sebos?
Maria, se não fosse trabalho com certeza nem te cobraria por tal serviço. Haviam anos que não entrava nos sebos da Avenida Passos, Regente Feijó, Alfandega, Carioca que, passar horas ao teu lado folheando as paginas amareladas e empoeiradas de alguma edição de um clássico qualquer, me reportaram aos tempos de pesquisas escolares em José de Alencar, Machado de Assis, Eça de Queiroz…e acabei também procurando aquelas edições outrora perdidas ou roubadas de minha estante. Se, não estivesse a trabalho, com certeza horas seriam dedicadas à novas aquisições.
O marido morreu havia dez anos. A esposa morreu recentemente. Os filhos, que não se prendem as tradições e não dispõe mais de tempo ou do mesmo zelo paternal, resolvem vender toda a coleção do pai para um dos sebos visitados. “Menina, aqui tem obras raras e que valem muito” – me disse o simpatissimo dono de um dos sebos enquanto catalogava as obras recem-adquiridas. “Triste do pai que espera além do que seu filho pode oferecer” – complementou ao ficar olhando o tamanho da coleção.
É claro que o lado cultural, histórico e arquitetônico não passaram desapercebidos aos olhos curiosos de Maria enquanto eu disparava informações e curiosidades da cidade; nem mesmo o mal humor do famoso artesão das escadarias - ao tirar fotos com “green go” que só queriam tirar apenas fotos -; ou o cheiro do back enquanto andava por ladeiras históricas, também não passaram desapercebido as percepções de Maria.
O bloco vai passar e a clausura continua silenciosa ao mundo. Passado e presente nas velhas páginas amareladas, nas ruas, nos casarios, no velho prédio que ainda guarda na memória de elementos art nouveau, as pernas da vedete em tempos aureos do Teatro de Revista.
Para Maria presentei um amarelado Alienista, de Machado de Assis. Afinal, a questão é científica – em nossa sanidade ou loucura.