Fico sentada olhando os palhaços no picadeiro. Eles pulam, gritam, correm, dão cambalhotas, fazem palhaçadas, eles debocham, caçoam, riem de mim, me fazem rir. Lembrei-me de Chaplin. Me fazia rir com seu silêncio audível. Os palhaços, anunciam o próximo espetáculo.
Luzes azuis, brancas e vermelhas. Ela chega sob o rufar dos tambores dos palhaços. Linda, firme, serena. Fico na expectativa da equilibrista cair. Um corpo pendulando sobre o fio da navalha. Meu coração dispara descompassadamente, minhas palpebras estão dilatadas. Fico ansiosa a cada passo. É o fio da navalha. A cruz e a espada.
E quem não vive sobre o fio da navalha? A loucura de um que incomoda e dilacera a loucura de outro. E assim, sobrevive-se um dia após o outro e com várias noites no meio. Não tem cura. Não há jeito. Na miséria de suas convicções errôneas e prejulgadas, caminha a humanidade. Me lembrou O Processo, de Franz Kafka. Humanos que tentam denegrir outros humanos. Desrespeitando-os, prejulgando-os. E assim morreu Josef K, condenado e morto por crime não revelado, no entanto, sua injusta morte ajudou revolucionar a matéria. Mas, a loucura só recebe aplauso de outros loucos, apenas meros espectadores de uma grande peça de teatro com péssimos atores e que também têm medo de serem péssimos atores de suas próprias vidas.
Eu, continuo sentada e rindo daqueles humanos que se vestem de palhaços, tentando chegar a pretensão de serem Chaplin para me fazerem rir diante do trágico. Apenas Chaplin conseguia tal façanha.
A equilibrista chegou no seu destino de lugar nenhum. Ela apenas equilibra entre a razão e o irracional, sobre o fio da navalha. No seu destino final, apenas olhou pés feridos com cicatrizes rapidamente curadas. Eu aplaudo.
Lá vêm os palhaços. Enquanto humanos houverem, o show não tem final. Só nos despimos da purpurina e trocamos as máscaras.