Por vezes me sinto vivendo no Mundo de Alice e cantarolando Somewhere over the rainbow. Talvez sejam essas constantes viagens que estejam me deixando meio a la chá de cogumelo ou no nirvana do santo daime. É sempre bom viajar, meio que se alienar dos problemas locais, dos noticiários a nivel nacional. Quando viajo sequer chego perto do computador, da televisão, do periodico diário ou semanal. Mas quando retorno…
Agora que os governos e a sociedade estão acordando para o problema do crack no Rio de Janeiro? São Paulo a muitos anos já vinha sinalizando para um problema que não é tão somente mais deles. Sai do noticiário a cracolândia paulista e entra a cracolândia carioca. Meus amigos sociológos talvez me expliquem essa mudança preferencial da midia.
Todos os dias quando vou para o centro da cidade passo diante de uma certa comunidade e, independente do horário que pegue o ônibus, pois o meu curso me disponibiliza essa flexibilidade em horários, vejo pessoas (crianças, homens, mulheres e alienigenas) em verdadeiros exemplos de zumbis circulando pelas ruas ou escondidos em terrenos baldios. A cracolândia é velha conhecida dos moradores daquela região a pelo menos uns cinco anos (segundo alguns clientes que moram dentro daquela comunidade ou nos arredores dela). E somente agora a sociedade carioca se preocupa?
O fato de quase cadáveres ficarem a olhos vistos em plena avenida Dom Helder Câmara, uma das mais movimentada do subúrbio do Rio de Janeiro, esteja começando a agredir aos olhos dos hipócritas. Realmente é feio mesmo ver àquela gente feia, pobre, maltrapilha caminhando feito zumbis enquanto você segue em direção ao trabalho, ao estudo, ao seu lazer. Melhor cortar caminho pelas vias expressas que iluminam os olhos numa rota de fuga. Talvez eles estejam ali para chamar tua atenção, sinalizando a situação degradante que vivem e que o crack proporciona às suas miseráveis vidas.
- Tia…tá me vendo aqui? Sou o lixo que resta de sua hipocrisia, da falta de trabalho, de estudos, de comida, de uma familia, de anos de ausência dos orgãos públicos”.
- E eu com isso meu filho? Se fosse pelo menos parecido com Selton Mello interpretando João Estrela, valeria a pena te dar ibope.
Calma Beth, calma! A grande maioria, quando passa por ali, ainda está sonolenta ou cansada demais para perceber o que vinha crescendo gradativamente a olhos vistos.
Em tempos de visita do COI (Comitê Olimpico Internacional), talvez governo e sociedade consigam salvar àqueles pobres daquela situação deplorável, que caminham perdidos nas calçadas, com seus planos de ação “a la choque elétrico”. Amanhã, durante o dia, numa manobra make up, talvez não os veja mais; quando meu ônibus passar em frente e eu ficar observando da janela àqueles pobres almas perdidas no purgatório de uma vida real. Talvez eles estejam a noite…quando tudo é silêncio, mistério, ausência, omissão, quando os gatos são pardos e o motorista do ônibus não para mais naquele ponto. Pena não terem percebido a tempo que o crack entrava pelas fronteiras e se instalava sorrateiramente, silenciosamente. Será que não perceberam?
“De acordo com dados da Secretaria Municipal de Assistência Social, o último mapeamento, de 2008, revelou que cerca de 400 crianças e adolescentes vivem nas ruas e noventa por cento delas são viciadas em crack”. Isso em 2008 - eles já sabiam. Portanto, não é um problema que cresceu de um ano para outro. O problema é que hoje está a olhos vistos, longe dos redutos da cracolândia e mais próxima do asfalto e para quem quiser ver – o que já era visto e sabido.