Por mais que seja fã de padarias, açougues e feiras dominicais não há como fugir dos supermercados nada charmosos que infestam essa cidade, aliás quaisquer cidades. Recentemente estava meio que evitando-os. Mês passado ao passar o cartão de débito passei a vergonha de tê-lo bloqueado, porém horas mais tarde a gerente do banco avisou que dois supermercados estavam com problemas com clonagem de cartão; e justamente o meu foi o sorteado daquele dia - Duas grandes redes varejistas sob suspeita. E automaticamente, o sistema anti-fraude do banco detectou e bloqueou a compra.
Recentemente precisei ir ao supermercado. E com tantos no meu caminho, tive que voltar justamente naquele onde prometi nunca mais pisar os pés e nem dar de cara com a gordinha de patins que riu ironicamente da minha cara ao ver meu cartão bloqueado. Andando prá cá e prá lá...reclamando dos preços, pesquisando daqui, olhando dali...me senti totalmente envolvida naquele universo de consumo que pesa nos bolsos e desfalca a carteira a cada ida. Geralmente, por não gostar de supermercados, sou ágil e objetiva nas compras, mas desta vez, meio que sem pressa para nada resolvi olhar atentamente as promoções, os preços, os corredores, as novidades que passavam da seção de informatica, aos itens de bebês, artigos para camping e pesca, flores; quando de repente entretetida na seção de laticinios aparece uma senhora de uns quase sessenta anos me pedindo dinheiro para comprar algo para comer. Falou isso e me mostrou sua mazela através de um câncer na orelha. Como se àquele câncer fosse o sinal verde para que o dinheiro fosse dado à ela.
- Desculpa! Só tenho cartão. Me desculpa mesmo...
- Tudo bem, vejo que você é uma boa moça.
- Desculpa!
Imediatamente apaguei àquela cena da minha mente e continuei percorrendo os corredores quando uns quinze minutos depois a mesma senhora me aparece novamente na minha frente.
- Moça. Moça. Moça. Vim atrás de você para te pedir um favor.
- Pois não.
- Você poderia tirar para mim uma caixa de ovos, quatro pães e um pacote de macarrão?
- Claro!
- Sério? Jura?
- Sim!
E vi àquela senhora sair pelo mercado feliz da vida para pegar sua caixa de ovos, seus quatro pães e seu pacote de macarrão. Ela estava tão feliz que nem eu entendia tamanha felicidade. Entrei em letargia total.
Fiquei aguardando-a no caixa para que ela passasse suas compras antes que eu pudesse passar as minhas, afinal ela trazia nas suas mãos tão pouco e eu com um carrinho quase cheio. E mais uma vez ela radiante ficou ao me ver aguardando-a pacientemente.
- Você me esperou? Você é um anjo.
No caixa ela contava para todos o motivo de sua alegria, me chamava de anjo e ficava agradecendo o tempo todo. Ao se despedir disse que Deus iria me abençoar porque eu era muito boazinha.
Ela foi embora assim que suas compras foram passadas; foi embora rindo, feliz em direção ao seu "barraquinho". E eu fitava-a e pensava com meus botões: "não sou um anjo e muito menos uma boa moça. Eu menti...estava com dinheiro na carteira, mas não queria te dar. Desculpa."
Mas ela precisava me mostrar o seu câncer para conseguir algo de mim? Seria capaz de dar muito mais do que uma caixa de ovos, quatro pães e um pacote de macarrão, se ela tivesse me pedido.
Não quero mais voltar naquele supermercado. Não sou anjo, muito menos boa moça...e qualquer dia derrubo "sem querer" aquela gordinha do patins.
